[NYLON] MARINA E SUA ESPERANÇA PARA A AMÉRICA

Confira a tradução da recente entrevista que Marina cedeu à revista Nylon. Tradução por Carol Thalheimer.

MARINA FALA SOBRE “ANCIENT DREAMS IN A MODERN LAND” & SUA ESPERANÇA PARA A AMERICA

Uma entrevista com a popstar sobre seu novo álbum, o qual coloca em avaliação as atribulações do mundo.

O quinto álbum de Marina Diamandis começa com uma revelação existencial. Dotada de um 3º olho, a cantora pop de 35 anos propõe a pergunta “What’s your purpose? Why were you put on Earth”, ou seja, “Qual é seu propósito? Porque você foi colocado no mundo?”, em “Ancient Dreams In a Modern Land” (Sonhos Antigos em uma Terra Moderna, tradução livre), música epônima ao álbum. Sua resposta: “Eu sou a observadora, sou uma testemunha da vida/Eu vivo no espaço entre as estrelas e o céu”.

Você poderia interpretar a resposta como algo vago, abstrato, espiritual, mas há um estranho grau de precisão nessa afirmação. Afinal de contas, a artista baseada no País de Gales e em Los Angeles, que agora se chama simplesmente de Marina, passou sua carreira inteira criando hinos pops que tinham como objetivo gerar reflexões sobre o mundo.

Seus singles anteriores como “Primadonna”, “How To be a Heartbreaker e até “Power & Control” alcançaram um fandom fanático no Tumblr de 2012, por refletiram a turbulenta, angustiante e singular experiência de ser uma adolescente naquela plataforma, naquele momento. Anos depois, em 2019 – logo após um pequeno hiato no qual Marina quase abandonou a música, e voltou à faculdade para acompanhar aulas de psicologia – ela fez tudo de novo para seu último álbum, Love + Fear, dessa vez com ambições muito maiores. Com músicas como “To Be Human” e “End Of The Earth”, ela focou seu olhar em problemas maiores que assolam o planeta hoje: motins, desastres nucleares, guerra e mudanças climáticas, enquanto lamenta “Still I don’t know what life means”, ou “Ainda não sei o significado da vida”.

Marina tenta responder sobre o significado da vida em seu novo álbum, Ancient Dreams In A Modern Land, que será lançado na sexta.  O projeto de 10 faixas continua no mesmo tema moral de Love + Fear; “Man’s World” é uma música pop barulhenta em desafio ao patriarcado, e “New America”, talvez a faixa com mais probabilidade de gerar polêmica por golpear a branquitude suburbana e o agronegócio, é um ruidoso e estrondoso presságio para a classe privilegiada estadunidense: “Você não pode enterrar a verdade, está na hora de quitar suas dívidas”. Mas são as faixas mais filosóficas do álbum, como a música-título mencionada acima, ou “Highly Emotional People”, uma surpreendentemente afetuosa balada que encoraja a vulnerabilidade, que sutilmente revelam a jornada que a cantora percorreu nos últimos ano. “Estou aqui para olhar dentro de mim mesma/reconhecer que eu posso ser o olho, o olho da tempestade”, ela canta.

Pelo Zoom, diretamente de sua casa em Los Angeles e entre os preparativos para o seu futuro show virtual, Marina conversou com a NYLON sobre o novo álbum, como foi escrever “Purge The Poison” durante os protestos pela morde de George Floyd, a importância da vulnerabilidade, e o porquê de ela ainda ter esperanças sobre o futuro dos Estados Unidos.

Como foi seu último ano, estando em quarentena? Surgiu alguma coisa surpreendente do seu tempo dentro de casa?

Sim. Meu Deus. Fica até difícil articular uma frase sobre como foi esse ano. Pensando agora, é como se minhas memórias tenham ficado armazenadas de uma forma diferente. Parece mais embaçado que a vida normal. Mas eu me beneficio por já ter um ritmo de vida mais calmo. Sou mais introvertida que extrovertida, de certa forma eu aprendi que eu não preciso preencher todo meu tempo como eu pensava que precisava.

Você estava trabalhando nesse álbum durante o lockdown?

Sim. Eu comecei no verão de 2019, então escrevi “Man’s World” naquela época. E então acho que a próxima leva de músicas que escrevi foi “Purge The Poison”. “Purge The Poison” e o que mais tinha naquele momento? “Venus Fly Trap”. A cada período de poucos meses eu alugava um Airbnb em Londres, ia pra lá por uma semana e criava uma remessa enorme de músicas. A maioria das músicas foi escrita nessas circunstancias.

Essas músicas escritas no verão foram feitas na época em que os protestos pela morte de George Floyd estavam acontecendo?

Sim, com certeza.

Como essa experiência te afetou?

Acho que tudo aconteceu um dia depois de eu começar a escrever “Purge The Poison”. Acho que sou como a maioria das pessoas que tem uma consciência e um coração, a maioria de nós foi profundamente afetada, e minha perspectiva é apenas a de uma pessoa branca. Mas esse aspecto traz seu próprio peso, porque eu acho que ainda há muito a ser trabalhado em mim e em outras pessoas em relação ao racismo latente que ainda existe em todos os lugares da sociedade. NA verdade, depois que comecei a escrever essa música, escrevi por um dia e depois não mexi nela por seis meses, porque senti, eu não sei… Acho que eu precisava refletir internamente sobre isso.

Eu queria me certificar de que a letra soava corretamente e que não soasse como se eu estivesse pregando algo, porque eu não estou me colocando nesse lugar de pregadora. Eu queria tentar formar uma imagem do que está acontecendo, e também sobre os aspectos positivos do que está acontecendo nos EUA. Subitamente, podemos pelo menos enxergar a realidade de como as coisas são para muitas pessoas que não são brancas. Eu acho que nunca antes estivemos nesse ponto, coletivamente. Acredito que muitas pessoas eram cegas a respeito do que estava acontecendo.

No decorrer da sua carreira, você nunca hesitou em falar sobre assuntos complicados. Isso é uma parte fundamental do tipo de música que você se vê fazendo?

Não sei se é uma parte fundamental, porque quando eu escrevo, eu só escrevo sobre o que me interessa. E nem todo mundo é destinado a fazer pop politizado, assim como nem todos nasceram pra escrever músicas de balada ou pop-punk feminino. Todos temos nosso lugar no mundo e eu sinto que sempre gravitei naturalmente em direção ao comentário social como uma forma de entender eu mesma a sociedade. Não sei se é fundamental. As vezes em entrevistas as pessoas me perguntam sobre “New America” tipo “Você está nervosa a respeito dessa música?” e eu respondo “Ah, eu não sei. Agora eu estou. Agora que você mencionou, talvez eu devesse estar preocupada, nervosa. Não sei.” Mas as coisas que coloquei na música são sobre direitos humanos básicos. E se houver repercussão negativa por causa disso, é algo que eu tenho que aceitar, porque sei que isso é parte de escrever sobre certos assuntos.

A música-título é um pouco filosófica – você questiona sobre nosso propósito do mundo. Isso é algo que você pensa com frequência, sobre qual é seu propósito no mundo?

Eu sou particularmente existencialista. Mas sim, eu acho que isso sempre esteve de certa forma um pouco inserido nas minhas músicas, seja de uma forma leve ou de um jeito mais profundo. E na verdade isso é bastante ligado à depressão também, o que talvez seja a origem da experiência de outras pessoas com o pensamento existencial. Acho que isso é simplesmente parte da minha identidade como compositora. Esses são os tópicos que eu exploro.

A música inteira é inspirada em uma escritura sagrada Hindu. A escritura é chamada Bhagavad Gita, e eu acho que ao longo dos anos me tornei mais e mais interessada nesse tipo de conversa, mas não sei se, quando as pessoas ouvirem a música, vão entender sobre o que ela fala exatamente.

“SE HOUVER REPERCUSSÃO NEGATIVA POR CAUSA DISSO, É ALGO QUE EU TENHO QUE ACEITAR, PORQUE SEI QUE ISSO É PARTE DE ESCREVER SOBRE CERTOS ASSUNTOS.”

“Highly Emotional People” ou “Pessoas Muito Emocionais” parece similar, no sentido de que afetuosamente encoraja as pessoas a demonstrarem mais vulnerabilidade. Você vê vulnerabilidade como algo que está faltando no mundo, algo de que precisamos mais nos dias de hoje?

Sempre, eu acho. Particularmente nos homens, porque eles foram criados (e socializados) para ver a expressão de emoções como algo “de mulher” ou feminino, embora eu ache que todos temos características femininas e masculinas. Quando escrevi a música estava pensando especificamente em homens, mas também serve pra todos os seres humanos. Eu acho que quando experienciamos sentimentos negativos ou difíceis, acreditamos que esses sentimentos são errados. “Nós deveríamos estar felizes o tempo todo, e por isso vou usar táticas psicológicas  para não falar sobre essas emoções”. Não sei porque os humanos fazem isso, mas nós fazemos. E essa música é definitivamente sobre valorizarmos o fato de que somos, intrinsecamente, seres emocionais, e que fomos feitos para sentir todas as emoções, o espectro todo, para que possamos crescer.

O que te inspirou a escrever essa música?

Não teve um só evento marcante, eu acho que luto com quão alto e quão baixo meu humor pode se tornar, isso sempre foi uma parte de mim. Mas eu também estava refletindo sobre isso no contexto de um relacionamento que eu tive na época, e sobre como é difícil para homens serem capazes de conectar com outras pessoas de forma vulnerável. Acredito que isso seja algo que nós deveríamos estar encorajando-os a mudar. Não parece justo que homens sejam de certa forma punidos por serem emotivos de certa forma.

O álbum como um todo aborda as raízes do que há de errado nos EUA: masculinidade tóxica, capitalismo, agronegócio, o que você trata sobre em “New America”. Como você se sente a respeito do futuro dos Estados Unidos?

Me sinto otimista. Sempre amei e gravitei em direção aos EUA. Não sei se é só porque o país tem sido essa superpotência mundial por tanto tempo que as vezes quando me refiro aos problemas atrelados aos EUA, não é necessariamente só sobre os Estado Unidos; é global, mas os EUA simbolizam um limite do que há de novo, o que é aceitável, o que é ideal ou o que tradicionalmente feito há muito tempo. E é um império da forma como milhares de anos atrás a Grécia era um império, e todos os impérios devem cair em algum momento. Estou tangenciando um pouco o tema, mas meu ponto principal é: eu sempre me senti atraída pela cultura estadunidense. Agora eu moro aqui. Eu pago impostos aqui. Sou residente e me sinto muito otimista a respeito do futuro, porque eu acho que há um bônus quando se revela a verdade para as pessoas, dessa forma de consciência de massa, e esse bônus é a oportunidade de mudar. Acho que estamos num momento de virada como nunca estivemos antes.

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