MARINA: “QUANDO EU ME AFASTEI DA MÚSICA, MEU SENSO DE PROPÓSITO EVAPOROU.”

Neste início de era, temos entrevistas para todos os lados! Dessa vez, Marina conversou com o iNews UK. Confira a tradução de Bruno Sampaio.

Marina Diamandis: “QUANDO EU ME AFASTEI DA MÚSICA, MEU SENSO DE PROPÓSITO EVAPOROU.”

Por anos, Marina Diamandis quis ser a maior estrela pop do mundo. Não mais. Enquanto lança seu quinto álbum, ela conta a Michael Cragg por que ela parou de buscar hits.

Marina Diamandis passou meia hora antes da nossa entrevista “conversando com o vazio”. Respondendo perguntas enviadas pelos seus fãs obstinados como parte de um chat de mão única no Youtube, com assuntos sorteados de um feed frenético, a artista previamente conhecida como Marina and the Diamonds – agora apenas Marina – carrega um olhar ligeiramente assustado.

“Isso foi caótico”, ela sorri, ainda falando para seu computador da sua casa em LA, mas agora via Zoom. Seu fundo é uma linda vastidão de verde menta, uma cor que parece acalmar instantaneamente. “Isso é tão ‘burguesa sem filhos de 35 anos’, mas eu estou no meu quarto de Yoga,” ela gargalha.

Toda essa conversa é para promover seu quinto álbum, Ancient Dreams In A Modern Land, um retorno obstinado à forma após o estranhamente suave Love + Fear de 2019. Trazendo de volta às divertidas excentricidades que a diferenciaram quando ela surgiu em 2009 (um dos primeiros singles “Mowgli’s Road”, por exemplo, começa com um gorjeio “cuckoo”), assim como os vocais teatrais, os melismas extravagantes, os versos superintelectuais contrários ao sistema e a apresentação exageradamente technicolor com os quais ela forjou seu próprio caminho como uma deliciosamente peculiar deslocada do pop com uma fan base   leal que a venera.

Como no confuso, ainda que brilhante, álbum semi-conceitual Electra Heart de 2012 (nada menos que um Nº1 no UK), em Love + Fear Diamandis incluiu alguns colaboradores na sua composição, mas seus temas líricos instigantes – identidade, políticas sociais, misoginia, saúde mental – pareceram diluídos.

MADRID, SPAIN - NOVEMBER 18: Welsh singer and Songwritter Marina Lambrini Diamandis, a.k.a Marina, performs on stage at La Riviera on November 18, 2019 in Madrid, Spain. (Photo by Javier Bragado/Redferns)

Em Ancient Dreams, completamente escrito por ela mesma, todos esses temas foram amarrados novamente com letras espalhafatosas como as do single recente “Purge The Poison” zig-zagueando entre Britney, #MeToo, mudanças climáticas, a pandemia e o fascínio com bruxaria.

Em outra canção, a galopante “New America”, Diamandis repreende o país adotado por ela (Nascida em Gales de uma mãe galesa e pai grego, ela se mudou permanentemente para LA em 2020), continuando uma relação de amor e ódio que começou tão cedo quanto seu single “Hollywood” de 2010.

“Eu ainda tenho tanto fascínio com isso”, ela insiste. “Não faz sentido realmente.” Ela diz ter percebido uma mudança na percepção do país sobre si mesmo depois do último ano de inquietação política e social.

“Eu acho que o que aconteceu culturalmente tem sido saudável por que todas as paredes parecem ter sido derrubadas e essas verdades obscuras e muito desconfortáveis foram reveladas.”

Talvez o melhor exemplo no álbum de Diamandis no seu melhor nível seja “Venus Fly Trap” em que ela reflete sobre a sinuosa carreira de mais de uma década. “I did it my way baby, nothing in this world could change me” (Eu fiz da minha forma baby, nada nesse mundo poderia me mudar), ela canta, antes de soltar a deliciosa “I know that money ain’t important and it don’t mean you’re the best, but I earn it all myself and I’m a millionairess” (Eu sei que dinheiro não é importante e não significa que você é o melhor, mas eu alcancei tudo por conta própria e eu sou uma milionária).

Ela solta um riso abafado quando trago esse último verso à tona, a gênese deste derivando aparentemente de tweets que ela teria visto, às vezes vindo de seus próprios fãs, a chamando de “flopada”. (Todos seus álbuns emplacaram no top 10 do UK, enquanto o excelente Froot de 2015 atingiu o no Nº 8 nos Estados Unidos.)

“Eu aposto que vou ouvir muita m*rda por causa desse verso,” ela diz. No entanto, ela está muito além de se importar. “Eu não estou aqui mais para brincar ou ficar preocupada por que eu passei a minha vida inteira fazendo isso. Eu passei tantos anos vivendo no modo ansiedade. É claro que vão ter pessoas que discordam com o que digo. Mas o que eu vou fazer? Não expressar nenhum ponto de vista?”

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Há um sentimento de calma pós “Corrida Maluca” do Pop na MARINA de 2021, e não apenas por causa do casulo verde-menta. “Eu apenas aprendi que é bom sentir orgulho das coisas que já fiz, por que, eu nunca havia tido de fato esse sentimento até recentemente. Compor esse álbum me permitiu refletir sobre como a minha carreira tem sido na realidade.”

Ela sempre teve uma relação complexa com a fama. Quando adolescente, ela era obcecada, se referindo ao seu desejo de ser uma cantora como se fosse uma doença. Ao ponto em que, quando ela saiu da sua cidadezinha natal próximo a Abergavenny para Londres, a necessidade dela de ser bem sucedida a levou a aparecer em todas as audições – incluindo uma para uma boy band de reggae.

Depois de lançar independentemente seu EP “Mermaid vs Sailor” em 2007, ela captou a atenção da maioria das gravadoras e assinou com a Warner no final de 2008 lançando seu álbum de estreia pop-alternativo “The Family Jewels” em 2010. “Eu não estava surgindo sutilmente,” ela diz, sobre um álbum que reluziu no bege cenário pop do UK como um lampejo de glitter neon.

Para o seu álbum seguinte em 2012, Electra Heart, ela pintou seu cabelo preto como azeviche de loiro (e rapidamente trocou para uma peruca depois da tinta provocar queda no seu cabelo), e incorporou a personagem título como um emblema, não exatamente um alter-ego, do fragmentado sonho americano.

Era parte de um movimento para se tornar a maior estrela pop do planeta, com o álbum contando com um grupo dos produtores de maior destaque da época – Diplo, Stargate, Greg Kurstin, Dr Luke. A presença de Dr Luke, ela diz, não ter mudado a opinião dela sobre o álbum perante às alegações de assédio sexual feitas contra ele pela Kesha – ele nega as acusações e está processando Kesha por difamação – “por que isso foi parte da minha criatividade. Definitivamente, algo muito significativo aconteceu, mas isso não mudou como eu sinto sobre aquelas músicas.”

Electra Heart foi ambos, um álbum e um experimento. “Eu estava curiosa para ver se, eu seguisse certos passos, eu chegaria a certos resultados, e a resposta foi meio que sim. Eu de fato cheguei às rádios americanas, e eu aumentei imensamente a minha fan base – mas a que custo pessoalmente?”

“Era difícil sustentar e viver naquele papel” de Electra Heart. “Eu só pensei, ‘Eu não quero isso tanto assim’.” Eventualmente, as grandes aspirações começaram a minguar. “Elas não pareciam corretas mais. Você estava traduzindo validação como se fosse valor pessoal e eu acho que isso é algo que muitos artistas fazem subconscientemente. Todos nós queremos ser vistos ou ouvidos de alguma forma que seja cicatrizante em um nível mais profundo, mas nem sempre isso se dá dessa forma.”

Depois de Froot, ela vivenciou “anos de depressão e ansiedade” trazidos à tona por esse desembaraço entre a sua identidade e sua carreira. “Eu reconheci em mim mesma esse desejo de diminuir o ritmo e construir um estilo de vida um pouco mais saudável, mas se afastar da música significava que minha âncora havia partido. Meu senso de propósito, de repente, evaporado.”

Tirando uma colaboração recente com o Clean Bandit, Diamandis tem evitado buscar hits desde Electra Heart. “Não quer dizer que se eu tentasse jogar o jogo das paradas funcionaria, mas eu realmente não tenho feito isso com frequência por um motivo.”

Ela diz que fazer música puramente em busca de hits fez ela se sentir “tensa” e que “criatividade natural” significa não ter nenhuma reticência sobre o que você está fazendo. “Uma das coisas que mais me ajudou é distinguir exatamente como eu me sinto e ser corajosa o suficiente pra agir em cima disso. Você tem que confiar nisso.”

Esse instinto levou a um momento crucial na criação de Ancient Dreams in a Modern Land. Ansiosa para trabalhar com novas colaboradoras femininas, Diamandis evitou os canais típicos a que um artista de gravadora tem acesso, e publicou um chamado no Twitter pedindo por recomendações.

“Foi para todos os tipos de colaboradoras femininas – diretoras, fotógrafas, produtoras,” ela explica. “Eu gosto de fazer no estilo ‘Faça Você Mesmo’.” Ela começou a trabalhar com a produtora indicada ao Grammy Jennifer Decilveo em julho de 2019 no que se tornaria o primeiro single do álbum e expressão da utopia feminina, “Man’s World”.

“Não é como se não gostasse de trabalhar com homens, mas quando você entra em um estúdio e tem quatro caras lá, alguns deles que você nem conhece, já foi algo intimidante no passado. E não deveria ser, por que eu estou empregando-os para um serviço.”

Enquanto “Man’s World” seja talvez a mais óbvia declaração feminista do álbum, o cd inteiro explora mudanças em como a feminilidade é percebida. Parte dessa exploração envolve um recém-descoberto interesse em bruxaria, “porque é tão profundamente embebido na nossa percepção do feminino e o que isso significou através dos anos”.  

Ela vê um paralelo obvio entre a perseguição moderna das mulheres, primeiro em tabloides, jornais e mais recentemente online. “Eu acho ótimo que esses documentários sobre a Britney [Spears] tenham saído porque parece um transformador cultural,” ela diz. “As pessoas de repente estão tendo essas conversas.”

Talvez como mais um lembrete do progresso feito pela sociedade até aqui, ainda que pequeno, Diamandis diz que às vezes revisita reviews antigas do começo da carreira. “Algumas pessoas tinham um ódio total por artistas femininas da minha era,” ela diz. “É interessante olhar pra isso agora com um olhar diferente. Têm havido uma mudança no que nós percebemos como autenticidade.”

No passado, às vésperas do lançamento de um novo álbum, ela estaria constantemente preocupada com a repercussão negativa, e a “baboseira misógina” lançada na sua direção. Agora? “Eu apenas sinto que não tenho nada a perder,” ela declara, inspirando a calma energia do seu quarto de yoga. “Esse é o trabalho que eu quero colocar no mundo.”

‘Ancient Dreams in a Modern Land’ já está disponível. Uma transmissão ao vivo, “Ancient Dreams Live from the Desert”, será transmitido ao Reino Unido no domingo às 18h.

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📷 | Marina via Instagram stories agindo como se não houvessem centenas de fãs implorando por música nova.

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