[ENTREVISTA] MARINA E O SUPORTE DA COMUNIDADE LGBTQ+

Em uma nova entrevista para a revista Vulture, Marina conversa um pouco sobre seu novo álbum, suas faixas antigas e o apoio dos seus fãs LGBTQ+. Confira a tradução por Caroline Thalheimer.

O pop mais estranho, mais gay, e mais incomum de MARINA, de acordo com Marina Diamandis

“Eu tenho certeza de que fui capaz de criar meu próprio caminho, sendo que esse caminho nem existia pra mim quando entrei na indústria 12 anos atrás”.

A jornada de mais de 15 anos de MARINA pela música pop, desde Family Jewels (2010) e Electra Heart (2012) até Froot de 2015 e Love + Fear (2019), nunca ficou presa a uma só coisa. Considere o contraste melódico entre a batida rápida e caótica de “Radioative” e o pop mais sutil, como a experiência branda de “Orange Trees” – ambas, que não poderiam soar mais distantes no som, mostram bem o momento da vida de MARINA em que foram lançadas. Mesmo durante sua evolução, a mensagem do trabalho de Marina Diamandis (anteriormente conhecida como Marina and the Diamonds) tem sido consistente e sinônimo ao que MARINA é (em suas próprias palavras: uma “sassy bitch”, ou “ vadia irreverente”). Pôr em ordem essas personas, as vezes exageradas, acaba sendo uma fonte abundante de emoções: uma aliada (vejam a alegria contagiante de “Primadonna”, agarrada nos corações dos gays); uma mística (“Purge The Poison”, ela afirma, é sua música mais “feiticeira” até agora); e uma rigorosamente vulnerável e honesta cantora.

Todas as facetas de sua maestria artística e identidade se aglutinam no novo álbum de MARINA, Ancient Dreams in a Modern Land, devido, como a cantora galesa define, à “necessidade de crescer”. O novo disco é outra reflexão sobre o seu período de criação, um hiato de dois anos, e também um espelho do passado da cantora de 35 anos. Liderado pela música-título de batida animada que incita revolta e desobediência (“Você não precisa ser como todo o resto do mundo/ Você não precisa se encaixar no padrão/ Você não está aqui pra se conformar/ Eu estou aqui para olhar dentro de mim mesma/ Reconhecer que eu posso ser o olho, o olho da tempestade”), ele se mistura com a aura saltitante e familiar das eras anteriores de MARINA, como o inspirador Electra Heart. Mas,    quando esse álbum chega ao final, há uma quebra na diversão – sua voz, em “Flowers” e “Goodbye”, mostra flashes de tormento misturado com esperança. Eventualmente, a rebelião cede. Essas músicas finais sobrevivem como belas conclusões para um disco que mostra francamente a aceitação de Diamandis, de todos os fluxos e refluxos de sua vida e carreira. “Não há uma mensagem específica, mas espero que as pessoas se sintam livres enquanto ouvem o álbum”, ela diz.

O nicho de MARINA no pop é singular, mas foi criado para ser povoado por pessoas da sua mesma natureza criativa – como Ava Max, Kim Petras, a recente de girl in red “You Stupid Bitch”, o hit de Ellie Goulding “Lights”, a faixa de 2017 “Femmeboat” de Charli XCX, a joia “Hello” de Allie X, e as variadas batidas de don’t smile at me, CD anterior de Billie Eilish. Entretanto, é a ressonância vocal distinta de Diamandis, e sua atitude atrevida e enigmática, que tem mantido esse espaço. A cantora recentemente nos teletransportou para diversos momentos marcantes de sua carreira que, colocados na mesa, ilustram sua influência no viciante e espontâneo mundo musical que ela originou. O papo foi irreverente, nostálgico e – dã – bastante gay.

Música de Ancient Dreams que melhor demonstra sua trajetória na música

[Em Ancient Dreams in a Modern Land], eu queria escrever sobre como é desafiador resistir à pressão se conformar, em qualquer contexto que se aplique à sua vida. Todos sentimos essas pressões. Mas eu acho, analisando minha carreira, isso foi um desafio pra mim. E eu tenho certeza de que fui capaz de criar meu próprio caminho, sendo que esse caminho nem existia pra mim quando entrei na indústria [assinando com a Neon Gold Records] 12 anos atrás. Então tem sido sobre resistir. É sobre ter convicção. Nenhum de nós está aqui pra arriscar pouco, ou para não viver nossas vidas de forma autêntica. Eu acredito que o que aconteceu recentemente, socialmente, e até mesmo com a pandemia, esses tipos de pensamentos foram inspirados em várias pessoas com quem eu tenho conversado.

Essa é uma pergunta complexa. Sonoramente, eu provavelmente responderia “Venus Fly Trap”, que é mistura da energia atrevida e lírica, com as produções meio bombásticas, agitadas e energéticas, que são coisas que eu sempre repeti pelo menos uma vez em cada álbum. Tipo “Oh No”, ou “Primadonna”. É como uma marca distinta do meu estilo como compositora.

Música da MARINA que pertence aos gays

[Risos] Eu não quero ser óbvia, mas eu ia dizer “Primadonna”, ou [How to Be a] Heartbreaker”. Essas músicas realmente me ajudaram a consolidar uma enorme base de fãs gays, LGBTQ. Eles realmente mudaram minha carreira, pois eu fui capaz de ter a liberdade que tenho como artista graças à lealdade dos meus fãs, e isso não é algo que eu não levo na brincadeira.

[“Primadonna”], eu acho… Okay. A cultura gay sempre entende humor extravagante/teatral muito bem e o usa muito bem. E eu sempre [tive a mesma atitude com o teatral] desde que eu era jovem. Então “Primadonna” é uma espécie de celebração disso; é também uma celebração de ser feminino e ser contraditório. E eu realmente acredito que as pessoas queer com quem eu convivo e conheço bem sempre tiveram uma melhor compreensão do que é ter feminilidade e se sentir feminino, em comparação aos homens héteros com quem eu convivo. E isso é algo ao redor do que eu e minha família gay sempre nos conectamos. Logo, faz sentido “Primadonna” ser o hino deles, já que é uma sátira, mas também uma celebração de tudo isso.

Música do Froot que mais ecoa em você

“Happy” com toda certeza. Às vezes é importante estar lutando com algo, e se render a isso. E eu não acho que conseguem fazer isso facilmente, porque nós sempre queremos superar e tentar resolver as coisas. Mas aquele realmente pareceu um momento de rendição pra mim. E marca um momento de mudança na minha vida.

Depois de Electra Heart, mesmo eu amando o disco, eu achei muito difícil promove-lo e divulgá-lo, porque as pessoas não estavam realmente entendendo o contexto. Eu ainda era relativamente nova como artista naquela época. E eles acharam que eu estava cantando aquelas músicas de forma séria, não ironicamente. Então foi bem difícil. A criação de Froot foi libertadora porque eu criei tudo sozinha. Ele é provavelmente o álbum mais querido pra mim.

Maior equívoco sobre o papel de MARINA na música pop

Acredito que o maior equívoco é esse comentário que sempre ressurge, que é “Ah, ela não é suficientemente reconhecida”, ou “Ela é subestimada”. Eu acho que as pessoas não compreendem bem que eu só não encaixei aos valores culturais das pessoas, ao que é ser comercial ou bem sucedida. Então, quando eles fazem esse tipo de comentários, acho que é disso que estão falando. Mas pra mim, é muito maior. O modo como eu vejo minha carreira é que ela tem que ser personalizada a partir do que eu sou. E eu não teria necessariamente me encaixado melhor numa carreira comercial. Eu não sei como eu teria lidado com isso quando mais jovem.

Além disso, se eu quisesse ser mais comercial, eu já teria sido, eu teria escolhido especificamente esse caminho. E [se eu fizesse] provavelmente não escreveria mais eu mesma, porque minhas músicas são muito mais estranhas quando eu escrevo sozinha, e o rádio geralmente não toca músicas com esse tipo de letra. Então essa é minha [única] opção. Provavelmente vou soar falsa, mas não estou sendo: eu simplesmente não penso em músicas como “flops ou hits”. Eu sei que as comunidades de fãs veem assim, mas eu não. Eu não tenho sido uma típica top-10, singles, artista topo de lista; isso nunca foi um dos meus principais objetivos.

Então esse é o principal mal-entendido – eu me sinto muito feliz com o caminho que eu criei pra mim mesma.

Letra mais estranha

Ahh! Tem várias em Electra Heart, quero dizer, tipo “Eu quero sangue, intestinos, e bolo nuvem/Eu vou vomitar de qualquer maneira”. Nesse disco, em “Goodbye”, tem o verso de mãe: “Eu tenho sido uma mãe pra todo mundo/Pra todos os escr*tos menos eu mesma/E eu nem tenho filhos”. Eu gosto de criar imagens; eu adoro montar um cenário pra alguém. Em [novas músicas como] “Purge The Poison” ou “Man’s World”, eu faço a mesma coisa – pareceu muito adolescente da minha parte. O que [também] combinou com o conceito de “Teen Idle”.

Música com a qual você mais se identifica como MARINA

Mesmo sendo nova, acho que “Venus Fly Trap” é o ápice da Marina “sassy-bitch”, vadia atrevida. Já uma música mais antiga, eu provavelmente diria “Froot”. Foi tão divertida de criar, e todo o álbum foi escrito ao redor daquela música. Acho que é uma das melhores demonstrações da minha identidade melódica e autoral.

Regra de “Heartbreaker” que você ainda segue

Acho que a única que sobrou, regra nº 1, é que “você tem que se divertir”. Eu cresci além de todas as outras, infelizmente. Não sou mais pura (risos).

Música mais desafiadora de cantar ao vivo

Todo esse próximo álbum [risos]. Eu penso “Porque faço isso comigo mesma? Sou eu que escrevo, eu podia fazer melodias mais fáceis. Eu tenho que mudar de tom a cada 10 segundos?”. É, esse CD é difícil. “Purge The Poison” é especialmente complicada, “Venus Fly Trap” também. Elas são muito rápidas. Quando canto elas no estúdio, eu estou cantando os versos, faço eles tipo 8 vezes, e só então eu vou pro pré-refrão. Eu quero dizer que é impossível [performar elas todas do início ao fim em um take], mas eu não acho que seja realmente. É só… Você meio que precisa de tempo em turnê pra moldar sua voz a certas músicas. Espero que, até o momento de sair em tour, eu tenha conseguido me adaptar.

Música mais galesa

Eu diria que é “I Am Not a Robot”. É uma balada super suave e bonita. É por isso que o povo galês é conhecido, grandes baladas.

Música cuja relevância mais mudou pra você

Em “Sex Yeah” eu estava absorvendo o que estava acontecendo naquele momento e o que eu percebia. Não sei se eu escreveria aquele tipo de música agora, mas eu acho que na época, em 2012, pareceu relevante. Nós estávamos passando, quer dizer, de certa forma ainda estamos, mas naquele momento ainda estávamos num período de julgamento, de olhar para a forma como certas artistas mulheres se vestiam. E era tipo “Oh…”. Por exemplo, Lady Gaga, ela é super provocativa – ela é uma provocadora – e não é uma coisa ruim ela escolher vestir o que ela escolhe vestir. [Mas] aquilo estava tão enraizado em nossa mente naquele período, eu senti isso. Eu queria pensar sobre como aquilo se relacionava às mulheres historicamente, o que é basicamente o que eu continuo falando sobre, com “Man’s World” e “Purge The Poison”.

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