[BILLBOARD] “Eu não tinha nada a perder artisticamente”

Confira abaixo a tradução da mais recente entrevista da Marina para a Billboard. Tradução por Bruno Sampaio.

O último álbum de Marina fornece um novo sentido pro que é liberdade: “Eu não tinha nada a perder artisticamente”

A veterana do pop discute uma indústria em constante evolução, assumir riscos enquanto compositora e como digerir o feedback dos fãs às vésperas do lançamento de seu novo álbum “Ancient Dreams in a Modern Land” (Sonhos anciãos em uma terra moderna)

Ao longo do curso da sua carreira de mais de uma década, Marina Diamandis têm desafiado os parâmetros musicais/sonoros e líricos da música pop tradicional – misturando sons eletrônicos com pop chiclete, explorando assuntos como identidade e alienação dentro de ganchos impertinentes/atrevidos/raivosos, desafiando os limites da sua voz mezzo-soprano. E na próxima sexta-feira (11 de junho), Diamandis – que anteriormente se apresentava como Marina And The Diamonds, e agora se apresenta como MARINA – vai revelar seu álbum mais temáticamente ambicioso da carreira com Ancient Dreams In A Modern Land.

Álbum este que possui inclinações mais dançantes que o seu antecessor (Love + Fear de 2019), ainda assim o quinto álbum da cantora e compositora galesa é também seu álbum mais político. Abordando temas como desigualdade econômica, racismo, misoginia e a crise climática. O primeiro single “Man’s World” mirou no patriarcado quando foi lançado no último novembro; “Purge the Poison,” lançado em abril, imagina a Mãe Natureza punindo a humanidade pela ruína do capitalismo e disparidade de gênero. E “New America” foca na podridão da injustiça sob grande parte da história dos EUA: “America, America/ Você não pode enterrar a verdade/ É hora de pagar as suas dívidas.” Ela canta.

Ancient Dreams in a Modern Land nos mostra Diamandis, que escreveu cada música e co-produziu 5 de 10 faixas, reposicionando a posição dela como uma das vozes mais corajosas do pop; ela terá a oportunidade de apresentar a visão dela sobre o novo projeto durante uma apresentação completa com banda ao vivo e ambientado no deserto neste fim de semana. Às vésperas do lançamento da sua última obra, Diamandis conversou com a Billboard sobre como endereçar problemas sociais nas suas composições, a influência dos fãs na era das mídias sociais e um verso cativante sobre Britney Spears.

Quando você começou a escrever essas canções?

Em agosto de 2019. Eu escrevi “Man’s World” primeiro, e depois acho que um mês antes da pandemia eu escrevi “Pandora’s Box.” E então todo o resto depois disso já foi de no meio da pandemia.

Como isso afetou o seu processo criativo?

Quando eu olho de novo pra “Purge the Poison”, é uma canção tão frenética e, isso faz sentido, porque nós estamos apenas tentando lidar com todos esses eventos extremos da nossa vida social. Muitos dos problemas sociais que enfrentamos tem sido revelados como exatamente o que eles são durante a pandemia, e isso definitivamente se espelhou em algumas das músicas. “New America” foi escrita depois da morte de George Floyd. Eu comecei, acho que por volta daquela data, e depois não mexi de verdade nela por seis meses.

Eu sentia que era um tópico tão sensível – principalmente não sendo americana, mas ainda assim comentando sobre racismo, que continua sendo um problema em todos os lugares. Eu queria ter certeza que eu estava escrevendo de um lugar que fosse lido não como uma lição de moral, mas tão exploratório quanto uma. Então, sim, em resumo, afetou bastante a maneira como escrevo. É muito difícil não se deixar afetar. Eu sou uma artista que sempre teve muita inspiração da cultura e da cultura pop desde o começo.

Quando você tem uma reação tão visceral a tudo que estava acontecendo nos jornais durante o último ano, é difícil de organizar os seus pensamentos ao redor de tópicos tão carregados como os que você menciona em “New America”? Digo apenas em termos de sentar e organizar versos e refrões e ainda por cima ser sucinto com essas ideias.

Sim, é difícil. E, sabe, as vezes eu não sou sucinta, mas talvez não seja esse o ponto. Como, com “Purge The Poison”, eu estava tentando dar vários recortes dos últimos 20 anos de cultura pop, e como nós tratamos certas pessoas e também como nós tratamos o nosso meio ambiente, o nosso planeta. Todos esses problemas estão se tornando realmente angustiantes agora. Então, organizar minhas ideias sobre isso foi muito mais esquisito do que algumas das outras canções. [Risos]. Mas com “New América”, eu estou interessada em ver como as pessoas vão responder a isso, por que eu acho que quando você coloca uma opinião política ou semi política em uma canção, você está tipo se colocando à mercê das críticas.

Até mesmo com “Purge the Poison,” as pessoas estão dizendo coisas tipo “Bem, você é privilegiada, por que você está escrevendo sobre isso?” E o negócio é que alguém tem que escrever sobre isso, sabe? Particularmente com racismo, pessoas brancas têm que falar sobre isso também, e eu nunca estou vindo de um lugar de apontar dedos. Nós estamos todos envolvidos nisso. Composição sempre foi um veículo para eu explorar coisas que me desafiam e coisas que me chateiam. Então é definitivamente complicado organizar as suas ideias sobre assuntos realmente importantes, e no fim do dia, independente do que as pessoas achem, é apenas como eu fui capaz de lidar com aquilo naquele momento. Então você só pode esperar que seu trabalho seja recebido da maneira que você intencionou.

Esse obviamente não é o seu primeiro álbum que aborda os assuntos de uma perspectiva sociológica. Mas ouvindo ele, de fato parece que você está se contendo menos do que nunca. Isso simplesmente veio com o tempo e a experiência?

Sim, eu realmente me sinto muito livre nesse álbum. E uma das coisas boas sobre mim é que, quando eu escrevo, eu não me preocupo com nada do que as pessoas vão dizer. Isso acontece depois no processo. (Risos) Mas quando eu estou de fato fazendo uma música, eu nunca sinto nenhum tipo de censura.

Acho que isso depende do tipo de álbum que você está fazendo também. Love + Fear tocou em alguns desses tópicos em canções como “To Be Human”, mas no geral ele era um tipo diferente de álbum. E eu me sentia diferente como um individuo naquele momento da minha vida, enquanto que dessa vez, eu simplesmente sinto como se eu não tivesse nada a perder artisticamente.

Você fala sobre o mundo como um todo, mudança climática e a crise em que todos nós estamos vivendo. Esse é um assunto que você vem pensando sobre, e querendo escrever sobre, por muito tempo? Houve algum evento recente que disparou a vontade de falar sobre isso nas suas composições?

Eu acho que tem muito o que ser dito sobre o que está acontecendo coletivamente, e eu estou, assim como todo mundo, com mudança climática ressoando na minha mente o tempo inteiro. Tenho certeza que você sente da mesma forma. É como se essa coisa ficasse remoendo cada vez mais intensamente ao longo dos anos. E acho que com o COVID, com essa pandemia, e sendo capaz de dar um passo pra trás e olhar o tipo de situação em que nós estamos vivendo socialmente e politicamente, apenas sinto que não tem lugar para esses tópicos se esconderem mais. E é por isso que eles surgem nas composições. Então, não é que eu não tenha pensado sobre isso antes, de colocar esses assuntos nas canções. Mas eu acho que tudo chega a um ponto de inflexão às vezes.

Em “Purge The Poison”, você canta sobre a ideia de uma irmandade reformulando uma sociedade que fracassou, em parte, por culpa da misoginia. Há ainda um verso sobre Britney Spears: “Britney raspou a cabeça dela, e tudo o que fizemos foi chama-la de louca.” Esse verso foi inspirado pelo documentário recente (Framing Britney Spears)?

Não. Estranhamente, esse verso foi escrito noúltimo abril. E acho que é realmente interessante como nós somos capazes de olhar novamente praquele momento. E eu acho que é realmente muito corajoso da parte dos jornalistas que reportaram sobre ela naquele momento serem capazes de olhar pra trás e dizer “Sabe de uma coisa? Nós não a tratamos da maneira correta.” E acho que isso estava ligado a um problema ainda maior: Naquele momento nós não entendíamos saúde mental da mesma forma. Nós vimos alguém que estava evidentemente tendo um colapso nervoso, e que havia sido levada a viver uma vida de altíssimo estresse, e basicamente tiramos sarro dela por conta disso. Quero dizer, não é sobre isso que “Purge” trata, mas era válido mencionar ela nesse comentário sobre feminilidade.

Como uma artista pop, você já sentiu como se a conversa sobre a sua própria arte – e sobre a arte pop como um todo, sobre mulheres na indústria musical – tivesse evoluído ao longo da sua carreira? As coisas estão melhores agora desde quando você estreou, ou ainda é basicamente a mesma coisa?

Essa é uma pergunta tão boa. Eu acho que definitivamente as coisas mudaram para o melhor. Artistas femininas tem recebido muito mais espaço para experimentar e para se tornarem mais comerciais se elas quiserem assim. Quando comecei, era muito difícil se virar para o pop se você tivesse raízes alternativas. Era como se, eu sempre senti a minha autenticidade questionada se eu não estivesse fazendo esses álbuns onde eu escrevia tudo sozinha, ou usasse instrumentos ao vivo. Mas também, mulheres eram muito mais julgadas pela aparência e humilhadas por isso.

Mas agora, a principal diferença que vejo online como uma artista – Eu sinto como se a mídia fosse potencialmente mais bondosa com os artistas, mas a relação fã-artista mudou, eu acho. De maneira positiva, fãs se tornaram muito mais analíticos e usam pensamento crítico muito mais, mas eles também são hipercríticos – ao ponto onde acho que eles têm a capacidade de prejudicar aquela relação artista-fã, porque é simplesmente muito difícil ler coisas negativas sobre você, todos os dias.

Há ainda o fato de que fãs tem uma voz cada vez mais amplificada com as mídias sociais. Antes você veria fãs nos shows e meet-and-greets, mas agora você os tem pesando e opinando sobre cada detalhe mínimo, imagino eu.

E sabe de uma coisa, é meio o que nós esperávamos ter. Tipo, a maneira como as redes sociais evoluiu tem complementado e encorajado isso. É apenas onde nós estamos agora. Mas eu amaria ver essas redes sociais ou evoluírem, ou surgirem novas redes onde a oportunidade das mensagens se tornarem odiosas apenas não estejam tão disponíveis? Porque acho que Twitter é um lugar inflamatório pra qualquer pessoa hoje em dia, independente do que você faça profissionalmente.

Você já se encontrou pensando demais sobre a reação dos fãs – você vê uma comunidade de fãs falando tipo “Marina deveria fazer mais disso” ou “Marina deveria desviar deste estilo” – e então começar a duvidar de você mesma como resultado disso?

Essa é uma pergunta muito difícil, por que eu gostaria muito de dizer não. Felizmente, a única hora em que não penso sobre esse tipo de coisa é quando estou escrevendo. Mas agora, pensando sobre o Love + Fear, e eu sei que tem uma certa porção da minha fan base que não se conectou tanto com esse trabalho porque este foi um álbum mais polido. E eles gostam das arestas, da agressividade, é por isso que eles são fãs do meu trabalho. Isso deve ter impactado a minha decisão de fazer então esse trabalho mais cru e selvagem dessa vez.

Então eu acho que tem sim um pouco de espaço para ser influenciado, por que no fim do dia, a sua fan base é aquele grupo que está ali te apoiando. Não é tanto a sua gravadora ou a mídia, ou, você sabe, críticos de arte ou qualquer outra coisa. Tipo – eu acho que você deve dar atenção até um certo nível. (Risos) Não dê a eles todo o seu poder! Mas acho que é legal que você notar.

Você anunciou uma transmissão global para esse fim de semana, e você vai estar trabalhando com uma banda completa. O quanto essa transmissão vai antecipar da sua próxima tour ao vivo?

É definitivamente uma amostra do que tem por vir. Eu tenho uma banda completa de novo, e eu não performei de fato dessa forma por seis anos agora, desde o Froot (álbum de 2015). Love + Fear foi mais dançante, teatral e eu não tinha uma banda na turnê, só um baterista. Então estou ansiosa para poder me libertar como performer. Essa é definitivamente uma reintrodução.

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